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Trabalho, identidade e bem-estar: O que sustenta a vida profissional hoje

por Paula Canassa



O que ganhamos quando, enfim, colocamos a saúde mental no centro da vida profissional?


Durante muito tempo, o mundo corporativo tratou a liderança como uma função centrada em performance: entregar resultados, sustentar pressões, resolver problemas rapidamente e garantir que tudo funcionasse.

Mas o cenário mudou. Hoje, liderar pede mais do que domínio técnico, pede presença. Pede uma escuta que acolha diferentes perspectivas e crie ambientes onde as pessoas se sintam seguras para pensar, contribuir e assumir riscos. Também pede coragem para sustentar conversas difíceis com respeito, de reconhecer limites, de equilibrar firmeza e sensibilidade.

A liderança contemporânea já entendeu que seu impacto não se mede apenas pelos resultados, mas por aquilo que ela transforma, ou adoece, nas relações ao seu redor.

Minha própria trajetória, acelerada, exigente, marcada por pressões, autocrítica e uma reinvenção tardia, me conduziu a essa compreensão profunda de como liderança, carreira, transição e saúde mental se entrelaçam.

A liderança sustentável entende que performance importa, mas não é tudo; reconhece que pessoas produzem melhor quando podem existir inteiras; sabe que resultados consistentes nascem de vínculos saudáveis, não de pressões silenciosas.Hoje, liderar não é apenas conduzir, também é cuidar, orientar, permitir que outros cresçam. Essa mudança altera profundamente a forma como enxergamos o papel de quem lidera.


Carreira: o mito da linearidade e a necessidade de reinvenção constante


Durante muito tempo, aprendemos a olhar para a carreira como uma escada: linear, previsível, ascendente. Mas esse modelo já não traduz a experiência real da maioria das pessoas. As carreiras contemporâneas são feitas de curvas, pausas, expansões, desvios e, sobretudo, da capacidade de se reinventar continuamente.Carreira, hoje, é trilha e não corrida.

 

Durante décadas, minha carreira cresceu enquanto minha vida pessoal encolhia. Para ser reconhecida, acreditei que precisava abrir mão de dimensões inteiras da minha existência: relacionamentos, maternidade, descanso, prazer, tempo.

Aos poucos, naturalizei a autocobrança, a comparação, a exaustão, a invisibilidade das minhas próprias necessidades. Tornei-me altamente competente, e profundamente desconectada.

A crise dos 40 trouxe a pergunta que eu nunca tinha ousado formular: o que está faltando em mim, além do trabalho?

Essa pergunta mudou meu caminho. Trouxe a consciência de que construir uma carreira, hoje, exige uma conversa permanente consigo mesma:Quem eu sou neste momento?O que faz sentido para mim agora?O que desejo sustentar?Que capacidades preciso desenvolver para onde quero ir?

O trabalho deixou de ser apenas um meio e passou a ser também um espaço de expressão e identidade, algo que amplia as possibilidades, mas também a responsabilidade emocional envolvida.

Essa reinvenção permanente é desafiadora. Ela pede clareza interna, flexibilidade para lidar com incertezas, autocompaixão para acolher limites e consciência para reconhecer quando o caminho já não corresponde a quem estamos nos tornando.No fundo, carreira deixou de ser apenas sobre o que fazemos, e passou a ser sobre como vivemos enquanto fazemos.


Transição de carreira: quando a vida pede mudança


As transições profissionais se tornaram parte inevitável da vida adulta. Ocorrem quando mudamos de área, empresa, modelo de trabalho, ritmo, interesses ou quando simplesmente percebemos que a vida pede outro movimento.Mas, apesar de frequentes, quase nunca falamos com profundidade sobre o impacto emocional que elas provocam.

Toda transição envolve um grau de luto: deixamos para trás uma narrativa sobre quem acreditávamos ser para dar lugar a outra que ainda não conhecemos completamente.Isso desperta medos legítimos: da instabilidade financeira, da perda da identidade, do julgamento, da insuficiência, do desconhecido.E nos coloca diante da pergunta que mais evitamos: quem sou eu sem os papéis que desempenhei até aqui?


Ao mesmo tempo, transições abrem portas para descobertas profundas. Revelam forças ocultas, ampliam repertórios, convidam à maturidade emocional e, muitas vezes, devolvem o que perdemos após anos de automatismo: a capacidade de escolher com intenção, reconstruir a autoestima, resgatar propósito e ampliar vínculos.Uma transição bem-sucedida não depende apenas de estratégia, depende de suporte, consciência e de uma coragem silenciosa que se fortalece ao longo do caminho.

“Coragem não é ausência de medo, é decidir ir mesmo com ele.”


Saúde mental: o eixo que sustenta tudo que tentamos construir


Um dos aprendizados mais marcantes da minha trajetória é que nenhuma conversa sobre liderança, carreira ou transição se sustenta sem falar de saúde mental. Ela é o eixo invisível que, organiza ou desorganiza, tudo o que vivemos profissionalmente.É a saúde mental que determina nossa capacidade de decidir, de nos relacionar, de criar, de sustentar mudanças e de lidar com as pressões inevitáveis do trabalho.

E, justamente por isso, aprofundo meu olhar para essa questão. A saúde mental é frequentemente sacrificada quando tentamos atender expectativas inalcançáveis, quando alimentamos padrões de autocrítica, quando confundimos valor pessoal com desempenho ou quando assumimos mais do que podemos carregar.

Hoje, muitos profissionais vivem esse dilema: para continuar entregando, vão se afastando de si mesmos, até que o corpo, a mente ou o emocional pedem por limites.Os sinais que ignorei por anos: exaustão, autocrítica, ausência de limites, desconexão emocional, são os mesmos que vejo diariamente em mentorados e pacientes.

Trazer a saúde mental para o centro da experiência profissional não é fragilidade — é maturidade.É compreender que ninguém lidera bem quando está exausto, ninguém faz escolhas coerentes quando vive no automático e ninguém conduz uma transição quando está emocionalmente desorganizado.A saúde mental não é acessório; é fundamento.E foi uma visão que, antes de tudo, precisei transformar em mim.


O que integra tudo isso? Consciência. Presença. Intenção.


Observando trajetórias profissionais: no ambiente corporativo, na clínica, na mentoria e, sobretudo, na minha própria; percebo que existe um fio condutor comum às histórias de crescimento sustentável.Esse fio se organiza em três movimentos internos.

A consciência é o primeiro deles: a capacidade de reconhecer padrões, valores, limites, forças e necessidades. Sem consciência, repetimos roteiros antigos mesmo quando já não fazem sentido.A presença é o segundo movimento: estar inteiro em si, nas relações, nas decisões, no momento presente.E, por fim, a intenção: direcionar escolhas com propósito, e não apenas por reação ou sobrevivência.

Esses três elementos não são conceitos abstratos; são práticas diárias que reorientam vidas profissionais.Funcionam como uma bússola emocional que permite navegar mudanças, superar pressões e construir uma carreira que não se rompe quando as circunstâncias mudam.


Uma pergunta final: quem você está se tornando enquanto trabalha?


No fim, tudo se resume a isso. Não ao cargo, ao título, ao reconhecimento ou às metas, mas a quem nos tornamos enquanto caminhamos.O trabalho ocupa grande parte da vida e, justamente por isso, deveria ser espaço de crescimento, não de esgotamento; de construção, não de perda; de autenticidade, não de autopressão.

Se, ao olhar para a sua trajetória, você ainda não tem essa resposta, isso não é falha — é convite.Convite para examinar rotas, ajustar velocidades, revisar crenças e, acima de tudo, colocar-se novamente no centro da própria vida profissional.

Que você possa construir um caminho em que resultados importem, mas em que você importe ainda mais.Onde exista ambição, mas também sentido.Movimento, mas também cuidado.Profissionalismo, mas também humanidade.Porque, no fim das contas, é isso que sustenta não apenas uma carreira, mas uma vida inteira.


Paula Canassa é Psicóloga | Consultora | Coach e Facilitadora Time to Think - Formações em Thinking Environment

 
 
 

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